1. O antigo Padrão Ouro

É curioso notar como aparenta ser um absurdo economistas, políticos e outras pessoas da sociedade imaginar que uma economia baseada em padrão ouro possa soar ridículo ou impossível. O padrão ouro vigorou nas economias ocidentais por pelo menos 120 anos, envolvendo transações financeiras e comerciais complexas e honestas. Se for olhar em transações simples, esse tempo aumenta para mais de 2000 anos, isso mesmo, mais de 2000 anos! E, um detalhe curioso: diversos lugares e diversas culturas adotaram à sua forma transações nessa moeda. Como referência, estamos falando de um lapso de tempo que atende a 10x o tempo de história dos EUA.

Esse artigo terá como base diversas literaturas que serão referenciadas abaixo, mas a literatura que mais tive como base foi o fantástico livro: Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos de Jesus Huerta de Soto. Começo a análise e apresentação de exemplos práticos com uma menção de seu próprio livro:

“Este foi meu primeiro objetivo ao realizar a análise econômica do contrato de depósito monetário irregular, nas diferentes facetas. Além disso, espero que minha análise esclareça um dos ramos mais obscuros e complexos da Economia: a teoria monetária, do crédito bancário e dos ciclos econômicos. Agora que a questão do socialismo já foi resolvida, ao menos de um ponto de vista teórico e empiricamente esclarecida a impossibilidade de seu funcionamento, o principal desafio teórico que os economistas tem de enfrentar no alvorecer do século XXI é aquele constituído pelo campo da moeda, crédito e instituições financeiras.”

A verdadeira fraude que é o sistema monetário atual – que possibilita governos maiores e concentração de renda – não é explicada por uma discussão inócua de capitalismo x socialismo, pois em 2026 (ano da escrita desse artigo), falar em socialismo já soa patético. A questão é como o capitalismo foi “sequestrado” por grandes entidades estatais – notavelmente Bancos Centrais – e grandes corporações, que afinal de contas, “se tornaram grandes demais para quebrar”.

2. Padrão Ouro e como funciona em uma economia local

Primeiramente, por quê usar ouro? Toda moeda deve atender a três pré-requisitos para ser considerada moeda, ou dinheiro (sua manifestação física):

Bem, o ouro atende a esses três requisitos e já se provou funcional pelo próprio tempo, mas que tal analisar as moedas ao redor do mundo? Quantas moedas diferentes o Brasil, por exemplo, já teve? Sem considerar os Cruzeiros da vida que desaparecem e aparecem do nada - ou seja, os tratando como um só - já tivemos sete moedas diferentes para uma história não muito longa... e pergunte a si mesmo, essas moedas atendem aos três requisitos anteriores? Se alguém apresentar uma nota de X Reis num posto de gasolina ele conseguirá alguma coisa? Creio que não. Agora se alguém tiver a sorte de encontrar uma moeda de ouro cunhada na época de César, o seu valor manteve ou até aumentou, o que não é verdade no caso do Cruzeiro, Cruzado, etc...

Como seriam as transações locais através desse padrão? Andar com moedas de ouro não é muito prático, então existir uma moeda a ela associada é algo que a humanidade conhece muito bem – os bancos nasceram nessa premissa. Num padrão ouro genuíno, os bancos teriam a tarefa apenas de serem depositários do dinheiro, tendo a possibilidade de serem intermediários de empréstimos de prazo fixado se o cliente abdicar de liquidez por prazo determinado. Nesse arranjo, não há possibilidade de existir expansão de crédito fiduciário – sem fraudes de criar dinheiro do nada penalizando a população para gastos governamentais e “ajudas” às empresas selecionadas por políticos.

Mas, facilmente alguém poderia perguntar: 'Qual a quantidade de ouro necessária para que esse arranjo funcione?' Teoricamente, qualquer quantidade seria possível, mas para fins práticos algumas toneladas seriam suficientes. O ouro é um metal raro, mas sempre existem minas a serem descobertas, o que pode gerar uma pequena inflação — mas, nada comparável aos efeitos inflacionários de se criar dinheiro do nada, como os bancos centrais vivem fazendo. Poderia se argumentar que essa situação geraria um Efeito Cantillon, mas, de novo: isso é comparável ao efeito Cantillon que existe nos países atualmente? O próprio Real, por exemplo, tem atualmente um valor de pouco mais de 10% do que tinha quando foi criado, em 1994. Certamente, não há ouro no mundo disponível para ser descoberto dessa maneira!

Continua...